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quarta-feira, 15 de julho de 2026

Argentina vira contra Inglaterra e vai à final novamente

 

Nunca foi tão difícil eliminar a Argentina. Cabo Verde, Egito e Suíça advertiram a Inglaterra. Eles parecem em ritmo lento, mas não se dão por vencidos. São os hermanos do Velho Testamento, acostumados aos enredos dramáticos e a jogos resolvidos muito mais na raça do que na técnica, mesmo quando se tem o fora de série eleito oito vezes o melhor do planeta bola, Lionel Messi. Perdiam para os rivais ingleses até os 42 minutos do segundo tempo, quando Enzo Fernández chutou de fora da área e, enfim, venceu Pickford. Prorrogação? Que nada! Na base da raça, Lautaro Martínez saiu do banco para resolver e decretar a virada nos acréscimos, por 2 x 1.

Os gols são tributo ao astro Lionel Messi. O jogador, eleito o melhor do mundo oito vezes, terá um jogo para se despedir da Copa do Mundo. E que jogo. Terá a honra da terceira final da carreira, em 19 de julho, no MetLife Stadium, em Nova Jersey. O camisa 10 se iguala a Pelé e ultrapassa Maradona como jogador com mais exibições em finais de Copas: 2014, 2022 e 2026.

Aos 39 anos, Lionel Messi amplia o reinado. São 21 gols e 10 assistências em 33 partidas de Copa do Mundo, números que o transformam no maior artilheiro da história do torneio, um à frente do francês Kylian Mbappé. A classificação também coloca esta geração argentina em um grupo restrito. Os atuais campeões voltam a disputar duas finais consecutivas, repetindo o feito da própria Argentina de 1986 e 1990. Antes dela, apenas Itália (1934 e 1938), Brasil (1958 e 1962), Holanda (1974 e 1978) e França (2018 e 2022) haviam alcançado a marca.

O empate nasceu justamente dos pés de um argentino moldado pelo futebol inglês. Titular do Chelsea desde a Copa do Mundo de 2022, Enzo Fernández quase trabalhou com Thomas Tuchel em Londres. O volante já havia calibrado o chute ao longo da partida: mandou uma tentativa para fora e obrigou Jordan Pickford a fazer grande defesa minutos antes. Na terceira oportunidade, acertou em cheio de fora da área para recolocar a Argentina na semifinal.

O gol abriu a porteira. Embalada, a Argentina passou a encurralar a Inglaterra. Jordan Pickford teve uma atuação digna de Gordon Banks, salvando a equipe em cabeçadas que pareciam destinadas às redes. Mas a pressão era insustentável. Depois de Mac Allister acelerar a jogada, Messi dominou pela direita e cruzou na medida para Lautaro Martínez marcar de cabeça. Eram cenas que remetiam ao Catar, de uma seleção acostumada a crescer justamente quando o cenário parecia mais adverso.

A Inglaterra tentou vencer a Argentina jogando como a própria Argentina. Durante mais de 80 minutos, distribuiu pontapés, deixou o braço, travou o jogo e respondeu na mesma moeda à intensidade física dos atuais campeões mundiais. A equipe de Thomas Tuchel abriu o placar, parecia perto de voltar à final da Copa depois de 60 anos, mas descobriu da maneira mais dura que ninguém sobrevive melhor ao caos do que os próprios argentinos.

A transformação inglesa não foi obra do acaso. Desde o início da Copa, Tuchel moldou uma seleção muito mais resiliente do que talentosa. Sobreviveu com gol nos minutos finais na estreia do mata-mata, resistiu com um jogador a menos na vitória sobre o México, reagiu para eliminar a Noruega na prorrogação e, em Atlanta, encarou a Argentina sem se intimidar pelos 11 adversários nem pelos milhares de torcedores albicelestes que tomaram o Mercedes-Benz Stadium.

Também não deixa de ser simbólico que o gol tenha nascido de um herói improvável. Enquanto Messi, Kane e Bellingham monopolizavam as atenções, Anthony Gordon apareceu no lugar certo para concluir a jogada iniciada por um lançamento de Harry Kane, atuando como um legítimo camisa 10.

O apito final também soou como o fim de um capítulo para Thomas Tuchel. Contratado para romper paradigmas, o alemão viu escapar a chance de se tornar o primeiro técnico estrangeiro campeão do mundo à frente de outra seleção. A missão era dupla: quebrar um tabu quase centenário e conduzir a Inglaterra de volta à decisão pela primeira vez desde 1966. A Argentina adiou os dois sonhos na mesma noite.

Se o Brasil amargará até 2030 um jejum de 28 anos sem conquistar a Copa do Mundo, a Inglaterra seguirá carregando um peso ainda maior. A espera inglesa chegará a 64 anos desde o título de 1966. A seleção aprendeu a conviver com as fases agudas dos grandes torneios, mas tropeça justamente quando a taça está ao alcance. Foi semifinalista na Copa de 2018 e perdeu as finais das duas últimas Eurocopas, para Itália e Espanha. Agora, soma mais uma frustração à coleção.

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